Física e farofa: como uma brasileira cultiva mandioca no interior do Japão

Às vezes basta uma palavra para azedar um date – política, futebol, fé, escolha à la carte. Num dos primeiros encontros entre Bibi e Hiro, o caldo quase entornou quando ela julgou de bom tom contar a ele a história de uma jovem que matou e esquartejou o marido no Brasil. Era fevereiro de 2020, início de namoro, inverno no hemisfério norte, pré-pandemia, e Bibi convidara Hiro à sua casa para jantar, em Tsukuba, na província de Ibaraki, 60 km a norte de Tóquio. Ela fez estrogonofe, o picadinho russo que se tornou um clássico brasileiro acompanhado de arroz e batata palha. À mesa, também levou uma farofa de mandioca da marca Yoki, a deixa que a fez desengavetar o caso Elize Matsunaga.

Hiro Takagi, 27, arregalou os olhos e franziu as sobrancelhas. “Que bizarro”, pensou o jovem japonês, ao ouvir pela primeira vez a história do crime de 2012 que ficou famoso no Brasil, mas não no Japão. Entretanto, o que era para ser um balde d’água fria no date virou um marco no romance entre Hiro e Bibi graças à farofa, a farinha de aipim que ele experimentou, intrigado. “Foi delicioso”, diverte-se. Com o tempo, o estrogonofe se tornou uma das comfort food favoritas do casal, e a farofa, um pitéu a perseguir. “Não há nada parecido no Japão”, diz.

Não demorou muito para Hiro se apaixonar. “Bibi é demais, é além das expectativas”, define ele, que trabalha como consultor científico para agricultores, gosta de viajar, viveu na Europa e já versava o espanhol e o inglês — depois, decidiu aprender português; ela, japonês. Fisgado pela personalidade dela, foi ao Google para procurar mais informações sobre Bibi e, num dos encontros seguintes, foi direto ao ponto: “Você é famosa?”.

Física, farofa e afins Bibi é a física Gabriela Bailas, 30, gaúcha de Bagé, bacharel pela Furg (Universidade Federal do Rio Grande), com uma temporada de estudos na Universidade de Coimbra, em Portugal, e um mestrado na Ufpel (Universidade Federal de Pelotas). Fez doutorado em física teórica na Université Blaise Pascal, na França, e emendou um pós-doutorado no KEK – High Energy Accelerator Research Organization, o maior laboratório de física de partículas do Japão.

Desde 2016, ela também é youtuber, influenciadora digital e autora do projeto Física e Afins, dedicado à divulgação científica e ao combate a pseudociências na internet — no YouTube, tem 220 mil seguidores; no Twitter, quase 30 mil; e no Instagram, mais de 25 mil. Hoje, trabalha na Universidade de Tsukuba.

Hiro e Bibi se conheceram graças a um amigo em comum do KEK nos primeiros dias de fevereiro de 2020. Começaram a conversar pelo Line (app de mensagem instantânea tão popular quanto o WhatsApp no Brasil), encontraram-se umas vezes e engataram o namoro: em março, ela conheceu a família dele; em abril, decidiram morar juntos; em outubro, ele a pediu em casamento. “Quem diria que eu teria que vir tão longe para encontrar meu amor”, certa vez ela escreveu.

Com um anel brilhante no anelar da mão direita, Bibi foi fazer um tratamento de saúde no Brasil entre março e maio. Na volta ao Japão, trouxe na bagagem o vestido de noiva que sua finada avó usara na década de 1960 e um terno cinza e uma gravata rosa bebê para Hiro vestir na data especial, 15 de junho de 2021. Eles decidiram celebrar a união na casa da família dele, no interior de Ibakari, o que foi registrado em duas versões: uma com o vestido branco e o terno; outra com trajes típicos japoneses, a yukata, um tipo de quimono de verão. Viajaram a Tóquio em busca de uma loja especializada na vestimenta no badalado distrito de Harajuku – com 1,77, dois centímetros mais alta do que o noivo, Bibi não estava conseguindo encontrar um modelito adequado à sua altura.

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