Bolsonaro manipula politicamente família do petista assassinado

Após o assassinato do guarda municipal petista Marcelo Arruda, 50, em sua própria festa de aniversário com o PT como tema de fundo pelo agente penitenciário bolsonarista Jorge Garanho, no último sábado, 9, o presidente Jair Bolsonaro (PL) tenta desvincular a motivação política do assassinato. Tenta emplacar, sem conseguir convencer ninguém, a narrativa de que o ocorrido foi um crime comum.

Nesta terça-feira, 12, por exemplo, Bolsonaro disse aos seus apoiadores, na porta do Palácio da Alvorada, que “nada justifica a troca de tiros, mas lá fora…Está sendo concluída a investigação pela Polícia Civil do Paraná para a gente ver que teve um problema lá fora, onde o cara que morreu, que estava lá na festa, jogou uma pedra no vidro daquele cara que estava no carro do lado de fora. Depois ele voltou, e começou aquele tiroteio lá onde morreu o aniversariante”.

Bolsonaro tenta convencer uma parcela da população de que o crime não foi premeditado pelo bolsonarista e que não havia motivação política para o crime, mas que de fato aconteceu por causa de uma pedra que a vítima supostamente teria arremessado no carro do assassino.

Este discurso foi mantido também pelo vice-presidente, o general Hamilton Mourão, que, nesta segunda-feira 11, ao se manifestar sobre a tragédia ocorrida em Foz do Iguaçu, tentou transformá-la em um crime rotineiro. Para Mourão, esse tipo de crime “ocorre em todo o final de semana”. “Olha, é um evento lamentável, né? Ocorre em todo final de semana, em todas as cidades do Brasil, de gente que provavelmente bebe e aí extravasa as coisas, né?” declarou Mourão a jornalistas.

Em outras palavras, o vice-presidente classificou o crime como algo de caráter extremamente corriqueira. Esqueceu-se de dizer, porém, que o apoiador de Bolsonaro invadiu uma festa de aniversário com o tema do PT, decorada com as cores do partido e com imagens do ex-presidente Lula (PT), discutiu com o aniversariante por causa de política, ameaçou acabar com todos que ali se encontravam e foi até sua casa pegar sua arma retornando para a festa com o objetivo de cometer uma chacina. Por sorte, a apenas dos dois se envolveram no tiroteio.

O general também negou o cunho político do crime. “Não, não é preocupante. Não queríamos fazer a exploração política disso aí. Vou repetir o que eu estou dizendo e nós vamos fechar esse caixão. Para mim, é um evento desses lamentáveis que ocorrem todo final de semana nas nossas cidades, de gente que briga e termina indo para o caminho de um matar o outro”, afirmou.

O presidente Bolsonaro, em mais uma tentativa infrutífera de tentar melhorar sua imagem, ligou nesta terça-feira 12 para dois dos irmãos de Marcelo Arruda, José e Luiz de Arruda, que são simpatizantes do bolsonarismo. O presidente só não falou com a viúva de Marcelo e nem com seu filho.

A ligação foi intermediada pelo deputado bolsonarista Otoni de Paula (MDB-RJ), que esteve na casa de um dos irmãos de Marcelo. Na ligação por vídeo, Bolsonaro afirmou que a esquerda tenta “politizar” o assassinato do tesoureiro do PT. Além disso, convidou os irmãos para participarem de uma coletiva de imprensa na próxima quinta-feira 14, no Palácio do Planalto. Desta vez, sim, com o claro objetivo de explorar politicamente o crime.

“A possível vinda de vocês a Brasília, se concordarem, qual é a ideia? É ter uma coletiva de imprensa para falar o que aconteceu. Até para evitar ataques ao seu irmão. Não é a direita, é a esquerda. Esse cara ( que o matou), pelo que tudo leva a crer, é um desequilibrado”, disse Bolsonaro na ligação.

Um interlocutor do presidente afirmou que ele fez uma jogada de alto risco. “Foi uma jogada de alto risco, porque os irmãos mesmo sendo bolsonaristas, podem não querer desrespeitar a memória do irmão assassinado”.

A ligação do presidente, contudo, irritou a viúva de Marcelo, Pâmela Suellen Silva. Ela afirmou ter ficado surpresa com o telefonema de Bolsonaro aos seus cunhados. “Absurdo, eu não sabia”, disse. E enfatizou que os cunhados nem estavam presentes na festa de aniversário onde Marcelo foi assassinado. Portanto, não podem dizer o que realmente aconteceu.

Pâmela também afirmou que o presidente está usando o caso para se promover politicamente. “Acredito que Bolsonaro está preocupado com a repercussão política, porque tanto no vídeo que fez no cercadinho, como na que conversa com os irmãos de Marcelo, Bolsonaro diz que estão tentando colocar a culpa nele”.

Um dos filhos de Marcelo, Leonardo de Arruda 26, afirmou que a família está incomodada com a tentativa de responsabilizar Marcelo por seu próprio assassinato. “Meu tio cobrou esclarecimentos do presidente, pediu retratação pública, pedindo para a imprensa que está colocando meu pai como causador de tudo, para dizer que ele foi vítima de um assassino extremista”, afirmou.

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